A depressão nas crianças e jovens, uma face por vezes oculta

J, 14 anos, aluno mediano do 9º ano, foi organizando na sua mente uma tentadora ideia: fazer um telefonema revelando que havia uma bomba na escola. Esta ideia surgiu-lhe depois de ouvir alguns amigos comentarem uma notícia de jornal que relatava um comportamento semelhante. A atratividade da ideia levou J. a procurar uma cabine telefónica e efetuar o telefonema para a escola. Não demorou muito até que soasse o alarme da escola e aparecesse a polícia dando ordem de evacuação das instalações escolares. Não tendo encontrado qualquer engenho a polícia libertou as instalações após algumas horas. Quando passados 2 dias do acontecimento a vida da escola tinha voltado à normalidade, J. revelou a dois colegas com quem trocava mensagens no Instagram que tinha sido ele o autor do telefonema. Rapidamente a notícia espalhou-se e, algumas horas depois os pais de J. receberam uma convocatória para se apresentarem na escola tendo notificado a polícia do sucedido. A família foi obrigada a comparecer em tribunal, tendo a juíza proposto que os pais de J. efetuassem vigilância próxima ao filho. No dia seguinte J., estranhamente feliz, J. comentava com os seus colegas: “desde há muito tempo foi a primeira vez que eu estive com ambos os meus pais numa sala”. Ter os pais juntos e, consigo, e ter estado sob os holofotes da ribalta trouxeram a J. uma sensação de afeto e reconhecimento que não experimentava há muito.

O comportamento de J., passível de ser classificado como disruptivo ou até delinquente, pode iludir a avaliação das verdadeiras causas que provocaram a sua atitude. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, não estamos perante uma perturbação da conduta ou anti-social.  O que J. fez foi uma chamada de atenção para o seu sofrimento, não tendo encontrado melhor forma para expressar o seu mal-estar. Este tipo de comportamento pode induzir avaliações erróneas até a profissionais da saúde mental.

O afastamento que os pais tinham entre si e que ambos tinham de J., foi desenvolvendo um mal-estar para o qual J. não tinha suficiente competência emocional e cognitiva. Ninguém reparou no seu progressivo isolamento, ninguém notou que ele estava a sofrer. A vivência depressiva de J., como acontece amiúde, manifestou-se de uma forma que não foi percebida pelos adultos que cuidavam de si nem pelos educadores.

O desenvolvimento psicosocial vai disponibilizando eventos de vida que colocam exigência às crianças e jovens. Esta exigência constitui um desafio para que aconteçam mudanças evolutivas nas suas competências e na sua organização psicológica. Em algumas crianças e jovens, este desafio destapa vulnerabilidades do seu funcionamento, as quais os predispõem para sentimentos de dificuldade, incompetência ou, até, desesperança. Concentrados na tentativa de evitarem a escalada dos sintomas de ansiedade e/ou tristeza, não expressam de forma clara o seu mal-estar que, dessa forma, passa frequentemente despercebido.

A vivência de determinadas situações como fracassos ou frustrações é sempre subjetiva e depende do funcionamento psíquico (personalidade) de cada indivíduo. O fato dos adultos não identificarem que determinadas situações têm potencial para provocar preocupação, ansiedade, tristeza ou aflição, faz com que não identifiquem essas vivências nos seus filhos ou alunos. Esta realidade faz com que determinadas crianças e jovens se sintam sozinhos (solidão emocional) e incapazes de contrariar a situação (desamparo). Estes sentimentos constituem um remoinho que pode ganhar o poder auto-destrutivo de um tornado. É importante estar atento a alguns sinais que podem indiciar sofrimento psicológico, como aqueles que enuncio em seguida:

  • Aumento significativo da vontade e energia para o envolvimento em atividades com carga elevada de aventura ou risco – estas ações estão motivadas pela busca de sensações imediatas e intensas de excitação;
  • Mudança significativa na atitude face às outras pessoas, tanto no sentido do evitamento dos outros gerado pelo receio ou medo de fracasso ou rejeição como no da busca impetuosa dos outros como uma forma de ocupação – estas ações são comandadas pelos sentimentos de solidão emocional e/ou de retraimento social;
  • Emergência de comportamentos disruptivos antes inexistentes como fugas de casa, pequenos roubos, atividade delinquente ou anti-social – estas ações são geradas pela necessidade de obter algum protagonismo e de melhorar a auto-estima;
  • Expressão de emoções negativas intensas do tipo da raiva – esta emocionalidade está associada a níveis altos de frustração.

Nos adolescentes, por vezes, ocorrem também comportamentos:

  • aditivos, de consumo de álcool ou drogas – estas ações trazem excitação e, por vezes, integração social e auto-estima;
  • promiscuidade sexual, principalmente em jovens com problemas de adaptação – estas ações promovem gratificação, auto-estima e, eventual integração social;
  • alienação, como o abandono dos projetos de vida onde estavam inseridos, a inatividade permanente ou o desenvolvimento de uma atitude cínica que é frequentemente praticada através do ingresso em grupos com ideologias não convencionais e/ou práticas anti-sociais – estas ações buscam a aquisição de um sentido de identidade.

As crianças e jovens com vivências depressivas têm frequentemente sentimentos disfóricos que, pela sua falta de competência emocional e cognitiva para lidar com eles, promovem a vivência de dúvida ou incapacidade para controlar as dificuldades, de desamparo, indefesa e/ou desânimo. Estas vivências podem ser originadas por diversos fatores entre os quais dois são muito comuns:

1. O desenvolvimento de um funcionamento marcado pela desesperança, dúvida e inferioridade. O desenvolvimento deste psiquismo é promovido pelo fato de não terem construído níveis adequados de segurança interna e de autonomia que os leva a desacreditar na capacidade de desenvolverem iniciativas bem-sucedidas e de lidarem eficazmente com as complexidades e dificuldades que a vida vai trazendo. A dúvida e, por vezes, a desconfiança, vão-se instalando e promovendo experiências de fracasso que reforçam os sentimentos e pensamentos pessimistas. Nem sempre as experiências repetidas de fracasso nas crianças e, até, nos jovens, resultam de dificuldades de aprendizagem. Elas podem acontecer pela existência de um funcionamento dominado pela desesperança ou, pelo menos, pela dúvida que afeta a sua auto-estima e auto-eficácia, componentes tão decisivas para a obtenção de sucesso.

2. O desenvolvimento de um estilo atribucional negativo que promove a vivência de desânimo aprendido. O estilo atribucional é a forma como cada pessoa explica os resultados das suas ações. Este estilo pode ser caraterizado em função de três critérios: o lugar ou locus da causa que explica o resultado (interno vs externo), a estabilidade dessa causa (estável vs instável) e a sua natureza (geral vs específica). Quando os eventos negativos são relacionados com causas internas, relativas a atributos da própria pessoa, estáveis, pouco suscetíveis de modificação, e globais, que afetam a pessoa enquanto totalidade, aumenta a vulnerabilidade para ocorrerem vivências depressivas. Embora com menos intensidade, a atribuição a fatores externos, (o acaso ou o grau de dificuldade das situações ou problemas), instáveis e específicos também gera sentimentos de baixa capacidade para controlar os eventos e, consequentemente, tem potencial depressivo. Quando os sentimentos de incapacidade para controlar os eventos de vida estão associados a dúvida ou desconfiança aumenta a vulnerabilidade para ocorrerem vivências depressivas.

A modificação dos estilos atribucionais, dos sentimentos de dúvida, incapacidade ou desamparo requisita uma intervenção especializada que transforme os circuitos neuropsicológicos da pessoa e, consequentemente, as emoções e pensamentos que habitualmente efetua perante a realidade, especialmente em situações complexas e/ou difíceis. A psicoterapia constitui uma técnica de intervenção psicológica que, apoiada nas ferramentas adequadas, oferece uma oportunidade importante para ajudar as crianças e jovens com vivências depressivas.

Jorge Ferreira

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