Terminou a adolescência, e agora?    

A adolescência, outrora período de preparação para a vida adulta, foi progressivamente perdendo esse papel propedêutico da adultez. Esta modificação é devida a fatores como o prolongamento da escolaridade, as dificuldades dos jovens em aceder ao mercado de trabalho e construírem uma carreira profissional, o endeusamento da juventude enquanto estado físico e psicólogico idealizado. Todos estes fatores concorrem para uma entrada mais tardia na vida adulta. Além disso, a sociedade contemporânea fomenta uma perspetiva de vida maioritariamente centrada na satisfação imediata das necessidades, prazeres e interesses. Este imediatismo constiui um obstáculo à construção de objetivos e projetos de vida nos jovens.

Terminada a adolescência, uns optam pela formação académica e ingressam na Universidade, outros preferem a formação profissional como meio mais direto de aceder ao mercado de trabalho e, outros, abandonam os estudos e enfrentam imediatamente o mercado de emprego. Em qualquer destes grupos, existe uma percentagem significativa de jovens que não maturaram devidamente a escolha efetuada, todas elas legítimas, pois vivem sob a tal lógica de satisfação imediata de necessidades e prazeres. A gratificação oferecida por atividades de convívio, jogo e lazer não tem competidor à altura o que, tendo em conta a natural tendência do cérebro para buscar gratificação, constitui um risco. Porquê? Porque esta realidade predispõe os jovens para uma ação mais impulsiva que planeada ou refletida. O planeamento e o controlo inibitório (capacidade de controlar os impulsos e/ou de adiar a gratificação) são funções executivas elementares e, simultaneamente, condições necessárias ao desenvolvimento neuropsicológico e da personalidade.

Quem quero ser, que estilo de vida quero ter, que valores e crenças adoto para mim? O que tenho de fazer, que recursos tenho de adquirir para alcançar essas metas?

Embora a obtenção de gratificação seja fundamental para o bem-estar psicológico e, para a felicidade, o modo de vida bastante hedonista dos jovens contemporâneos, não favorece o desenvolvimento mental. A psicoterapia constitui uma ferramenta poderosa para o auto-conhecimento e a formação da personalidade pois facilita os processos de auto-exame, de desenvolvimento de ferramentas mentais mais eficazes de regulação emocional, de processamento e interpretação da informação. O melhor conhecimento de si permite aos jovens uma melhor consciência da formação dos seus objetivos e expetativas de vida e maior capacidade para tomarem decisões e as concretizarem em condutas eficazes.

Jorge Ferreira

Psicólogo Clínico e Psicólogo da Educação

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