Consciência

A mente. O corpo. A mente em cada corpo. A dualidade, ou a unidade? Vamos tentar desconstruir a consciência. Concebê-la como nossa, diferente mas igual, única e semelhante a tantas outras. Afinal, o que é isto da consciência?

 

Há milhares (sim, milhares!) de anos que se fazem esforços para estudar a consciência, condição humana e intrínseca a todos nós. Inicialmente papel dos filósofos, é Descartes que nos faz a introdução ao conceito da dualidade mente-corpo, iluminando a ideia de que, embora separado, interagem e se influenciam mutuamente. Assim que a Psicologia é aceite enquanto ciência, aumenta a preocupação em entender e saber explicar o que é isto da consciência. Não podendo ser medida ou vista a olho nu, podia (e pode) ser analisada, sendo levadas a cabo cuidadas observações do seu conteúdo subjetivo, constituído por sensações, pensamentos e experiências.

Ora desde que Descartes definiu a consciência com a célebre ideia Cogito Ergo Sum (Penso, logo existo), sugerindo que o facto de sermos seres pensantes é sinónimo da nossa existência e, portanto e por consequência, de possuirmos consciência, algumas arestas foram limadas. Nos dias de hoje, e respeitando o caráter subjetivo inerente à consciência em si, pensa-se que esta é uma perceção consciente de nós próprios e do mundo. Parece estranho? Talvez porque o caminho não seja colocar por palavras algo tão subjetivo e individual, que ao longo de tanto tempo continua ainda sem ter uma definição estanque e universal.

Nesta busca incessante, surge o papel da neurociência, que se foca na compreensão das nossas experiências conscientes, através de brain-scanning na procura dos neurónios e regiões cerebrais envolvidas em diferentes eventos conscientes. Numa rápida pesquisa conseguimos perceber que existem duas teorias emergentes: Integrated Information Theory e Global Workspace Theory. A primeira aborda a consciência através dos processos físicos que ocorrem nas experiências conscientes, esforçando-se por medir a informação integrada que forma a consciência. Como? A qualidade da nossa consciência é ditada pelo nível de integração, focando-se no seguinte: se algo é consciente e em que grau ou nível. A segunda teoria sugere que o nosso cérebro forma informações através de um “banco” de memórias, formando assim a experiência consciente, focando-se em compreender como funciona a conscienciosidade.

Confuso? E se a isto acrescentarmos o seguinte: A consciência não é estanque e pode apresentar-se em diferentes estados, bem como surgir em estados alterados.

Diferentes estados de consciência como os sonhos, o próprio sono, estados de meditação ou de hipnose e alucinações estão também presentes em todos nós. Ou seja, todos os dias estamos sujeitos a que ocorram alterações no nosso estado de consciência, muitas vezes de ocorrência natural. Os estados ditos normais de consciência alternam entre o consciente e o inconsciente. Estados alterados de consciência são normalmente causados por condições médicas que condicionam a nossa capacidade consciente.

Essencialmente a consciência é a nossa perceção, subjetiva e exclusiva, de nós próprios e do que nos rodeia. É a capacidade de descrevermos algo que estamos a experienciar internamente. É a perceção única e intrínseca de emoções, sensações, pensamentos, memórias e acontecimentos.

É então, claramente necessário continuar a exploração das diversas bases de consciência, abordando diversas influências a nível físico, cultural, psicológico e até social ou de ambiente, por forma a melhorarmos a nossa perceção da mesma, connosco próprios e para os outros, olhando para dentro, para que sejamos cada vez mais próximos da nossa consciência.

A consciência tem muito mais para explorar, abordar e debater. O inconsciente, o subconsciente, como ocorrem diferentes processos. Quem somos nós na nossa consciência? Qual a linha que separa o consciente e o inconsciente? Que efeito exercem no nosso dia-a-dia? Vou tentando, enquanto profissional de saúde psicológica, desbravar partes do caminho que é o conhecimento da nossa estrutura psíquica.

À distância de um passo, podemos fazê-lo juntos!

 

Filipa César
Psicóloga Clínica e da Saúde

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